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Sócrates e Platão

Nascido em 469 a.C., Sócrates abraçou muitas das idéias da escola pitagórica, buscando provas da existência de um plano inteligente que existiria na construção do Universo. Interessou-se, portanto, menos pelo mundo dos fenômenos naturais, mas pelo mundo das idéias a ele subjacentes. Segundo sua doutrina, o verdadeiro conhecimento humano é essencialmente a herança de uma vida anterior em um mundo imaterial. O ato de ensinar seria, portanto, trazer à tona este conhecimento anterior (maiêutica socrática). Não tendo deixado obra escrita, seu pensamento é conhecido por referências, principalmente nos diálogos de Platão. Platão (427-347 a.C.) compilou e continuou a doutrina de Sócrates, apresentando grosso modo premissas semelhantes às dos pitagóricos. Dentre essas idéias, uma que teve longa continuidade na posterior doutrina cristã é a da efemeridade da vida face à perene eternidade. Sem examinar com detalhe as doutrinas de Platão, vamos nos deter num texto específico deste autor, voltado para uma descrição da gênese do Mundo, e alguns de seus ecos na ciência ocidental. É um texto que ganhou mais tarde um grande prestígio, em particular, no Renascimento. Trata-se do diálogo intitulado Timeu. Quase dois mil anos depois, no século XVI, o astrônomo Johannes Kepler embasava uma de suas obras sobre astronomia no texto do Timeu, cujo conteúdo é cotejado com o das Sagradas Escrituras : ``o Timeu ...é ...um pequeno texto sobre o primeiro capítulo do Gênesis, ou do livro I de Moisés, transformando-o em filosofia Pitagórica, como é manifesto a quem o ler com atenção e o comparar constantemente com as próprias palavras de Moisés.'' (Kepler, J, Harmonices Mundi IV 219 <117>). De acordo com o Timeu, o universo (ou mundo), teria sido criado por uma divindade que ``Isenta ...de inveja, quis que, na medida do possível, todas as coisas lhe fossem semelhantes.'' (Timeu 29e). Essa identidade entre o criador e sua criação tem um paralelo no Gênesis judaico-cristão, em que o Homem teria sido feito ``à imagem e semelhança'' (Gênesis 1,26) do criador, o que constitui provavelmente um dos paralelos entre as obras a que Kepler se refere. Segundo o Timeu, o Universo teria sido criado como um ``animal dotado de alma e de razão'' (Timeu 30b). Essa idéia do Universo como um ser vivo terá longa vida no pensamento ocidental. Mencionamos novamente Kepler que, defendendo o modelo de Copérnico, via a Terra não como o centro do Universo, mas como um planeta, com vida própria, afirmou: ``...o globo da Terra seria um corpo, como o de um animal...''. A Terra possuiria também uma alma - a Anima Terrae e mesmo uma ``respiração'' manifestada nas marés, semelhante à respiração dos peixes. O planeta Terra zoomórfico de Kepler tinha seu ciclo ``respiratório'' das marés, associado aos movimentos do Sol e da Lua, o que é considerado por Kepler uma semelhança com um ser vivo, claramente inspirado nos textos platônicos. Continuamos a cosmogonia do Timeu: O corpo do universo teria a forma perfeita proposta pelos pitagóricos, a esfera: ``Quanto à forma, concedeu-lhe a mais conveniente e natural. Ora, a forma mais conveniente ao animal que deveria conter em si mesmo todos os seres vivos, só poderia ser a que abrangesse todas as formas existentes. Por isso ele torneou o mundo em forma de esfera ...'' (Timeu 33b) A forma esférica teria virtudes especiais: ``...por estarem todas suas extremidades a igual distância do centro, a mais perfeita das formas e mais semelhante a si mesma ...'' (Timeu 33b)
``...a divindade criou a alma antes do corpo, e, quanto à origem, mais velha e excelente do que ele, por estar destinada a comandar, e ele, a obedecer.'' (Timeu 34c)
Portanto, conhecer as leis da Natureza seria antes de mais nada, conhecer a alma do Universo, construído segundo leis da harmonia. Esta alma, à qual o corpo do universo obedece possuiria uma estrutura interna regida por certa numerologia:
``...dividiu-a [a alma] em tantas partes quanto era conveniente haver...Nesta divisão adotou o seguinte critério: inicialmente separou uma parte do conjunto, depois mais outra, o dobro da primeira, e uma terceira uma vez e meia maior do que a segunda e o triplo da terceira; depois a quarta, o dobro da segunda, e a quinta, o triplo da terceira e mais a sexta, o óctuplo da primeira, e por último, a sétima, vinte e sete vezes maior que a primeira.'' (Timeu 35b,c)
Estes números têm íntima relação com leis de harmonia musical identificada pelos pitagóricos como uma manifestação física de uma harmonia subjacente. Estudaremos mais adiante em detalhe este problema da harmonia, ligado à gênese da física ondulatória.
``Concluída a composição da alma, de acordo com a mente de seu autor, organizou dentro dela o universo corpóreo e uniu ambos pelos respectivos centros. Então a alma entretecida em todo céu, do centro à extremidade, e envolvendo-o em círculo por fora, sempre a girar em torno de si mesma, inaugurou para sempre o começo de uma vida perpétua e inteligente. Assim formou-se, de uma parte, o corpo visível do céu, e da outra, a alma invisível, porém participante de razão e de harmonia, a melhor das coisas criadas pela natureza mais inteligente e eterna.'' (Timeu 36 c)
O universo, de forma esférica, foi colocado em movimento de rotação em torno de si mesmo. Isso corresponderia, astronomicamente, ao movimento diurno de rotação da Terra, que parece a um observador em sua superfície como um constante movimento circular da esfera celeste (v. Dreyer). Eis o nascimento do tempo no Timeu, associado ao início do movimento dos astros:
``.. o tempo nasceu com o céu, para que havendo sido criados concomitantemente, se dissolvessem juntos caso venham um dia a acabar...'' (Timeu 38b) ``...e, para que o tempo nascesse, também nasceram a lua e os outros cinco astros denominados errantes ou planetas, para definir e conservar os números do tempo.'' (Timeu 38c)
Estas últimas palavras sugerem um Universo à imagem de um gigantesco e eterno relógio, cujos ponteiros seriam os próprios astros. De fato, muitos séculos mais tarde (sec. XIV e XV) foram construídos relógios astronômicos como o de Pádua, de Praga e da catedral de Estrasburgo, que reproduzem no seu complexo mostrador os movimentos celestes. Precursores dos nossos relógios, possuem um disco móvel com o Zodíaco, que acompanha o movimento das constelações no céu. Possuem ponteiros com o Sol, a Lua e por vezes, outros ``planetas'', representando um verdadeiro autômato ou boneco animado do universo. Confrontando a ``cinemática celeste'' de Platão com nossa própria, podemos dizer que Platão procurou substituir a física pela matemática e não valer-se da matemática para construir a física. A idéia de um universo regido por leis e números, e composto por movimentos circulares servirá, no entanto, como ponto de partida fundamental para a edificação de uma astronomia consistente - o sistema de Ptolomeu - , que alguns séculos mais tarde terminou por ser capaz de prever o movimento dos astros, inclusive o movimento complexo dos planetas, com grande precisão. A Academia, nome de um parque e ginásio desportivo de Atenas, onde Platão ministrava seus ensinamentos, tornou-se um dos modelos de instituição de ensino no Ocidente, tendo perdurado por cerca de 900 anos, até ser destruída pelo imperador bizantino Justiniano I, no século VI d.C.


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